segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Plantão Caixa Preta

A AVIAÇÃO BRASILEIRA DE LUTO

ACABA DE FALECER CARLOS ANDRÉ SPAGAT, O MAIOR PUBLISHER DA IMPRENSA DE AVIAÇÃO DO BRASIL

(Atualizado às 22h53)

(por Solange Galante)


Amado por uns, odiado por outros, o fato é que ele fez mais pela aviação comercial brasileira do que muitos empresários da área e muitos governantes.

Criou a verdadeira "bíblia" da  aviação para jovens e adultos. Preservou a história das grandes companhias, anúncios, cardápios, histórias de personagens menos lembrados, e apontou e denunciou até mesmo as empresas picaretas que tentaram e ainda tentam voar no país. Como um bom jornalismo deve fazer.

Testemunhou grandes momentos da aviação mundial.

Para mim, em particular, foi um grande aprendizado, um verdadeiro divisor de águas na minha carreira. Nunca me destratou, embora eu o visse destratar muitas pessoas, e sempre elogiou meu trabalho, mesmo quando não correspondia ao que eu esperava.

VAI FAZER MUITA FALTA SIM!

TODAS AS BÊNÇÃOS DE DEUS A ELE E OS QUE LHE SÃO PRÓXIMOS.

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SPAGAT, O ICONOCLASTA

 (Texto de Helcio Estrella)

Perdemos hoje pela manhã, enquanto médicos lutavam por sua vida em um hospital paulista, um jornalista de minha geração que pode ser comparado, mantidas as proporções, a Assis Chateaubriand, o lendário fundador da cadeia de veículos Diários Associados. Um executivo da British Industry o definiu como “A critic of companies or people when interested” (Um crítico das empresas ou pessoas quando lhe interessava), num almoço no Salão Internacional de Aviação de Farnborough, próximo de Londres. Ele justificava um julgamento anterior que fizera sobre o tratamento que Spagat lhe aplicara, a respeito de uma disputa por uma campanha publicitária, em que meu veículo, Aviação em Revista vencera sua revista Flap Internacional. Ele acabou sendo incluído naquele plano de mídia, mediante pressão que os ingleses consideraram insuportável. “Business” dissera o inglês, pedindo-me desculpas.

Tive com Spagat alguns arranca-rabos em minha vida profissional. Um deles, eu gerente de comunicação da TAM, levei ao Comandante Rolim uma proposta encaminhada pelo Spagat pleiteando a inclusão de suas revistas no plano de mídia. Rolim disse “nunca”, após uma série de palavrões. Para surpresa minha, duas semanas depois acompanhei Rolim no almoço que o fundador de Flap lhe ofereceu em seu escritório. Depois, em outra investida, ele começou a agredir a agência de publicidade que prestava serviços à Nossa Caixa, onde eu era Gerente de Comunicações, porque ela se negava a dobrar o número de inserções. Dias depois a agência voltou atrás, justificando-se: Carlos Spagat fora lá pessoalmente, ajoelhara-se perante a encarregada de mídia, pedindo-lhe perdão por sua grosseria. Isto foi feito diante de dois grandes clientes americanos, perplexos, cuja conta a agência ganhara.

Passamos a ser concorrentes no mercado editorial quando deixei uma carreira no Jornal do Brasil e comprei Aviação em Revista, transformando-a num complexo de oito publicações voltadas ao setor aeroespacial. Acabei ganhando um prêmio que nunca fui receber, de uma Associação Americana de Jornalistas de Aviação e Espaço, e o convite para um lugar no que eles chamavam “hall da fama”. Ele passou a me ter como seu maior concorrente. Falava mal de mim, mas eu não me importava. Minha carreira era um obstáculo à raiva que nutria contra a revista. Certa manhã de um sábado distante, ele chega de surpresa ao sítio de Sabaúna, onde eu costumava me recuperar da vida corrida em São Paulo, acompanhado de sua filha, então com oito anos, trazendo-me duas garrafas de um bom bordeaux, que usamos para acompanhar o carneiro que eu mesmo preparara. Fizemos as pazes e eu o visitava de vez em quando no escritório, prática suspensa pela pandemia.

Assim era o Spagat, brigando feito um leão quando no campo dos negócios, mas mostrando seu lado de gentleman no campo das relações pessoais. Tal qual era Assis Chateaubriand.

Ele vai fazer falta, inclusive à Flap, a revista que criou e projetava no Brasil e no campo internacional, presente às grandes feiras mundiais, inauguradas por líderes como Margareth Tatcher ou François Miterrand, às quais comparecia de calça jeans e sandálias feitas de pneus.

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4 comentários:

  1. A primeira revista de aviação que comprei, aos 12 anos de idade em 1977, foi a FLAP Internacional. Por décadas comprei religiosamente esta revista. Tenho ainda àquele primeiro exemplar e todos os outros. Que descanse em paz o Sr. Spagat, que, como leitor, sempre o admirei.

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  2. Também foi a minha primeira em 1980, mas consegui até um número de 1971 num sebo. Vai fazer extrema falta.

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  3. Apesar de ele ter me destratado em um momento triste pra mim, sempre o admirei pela sua história na aviação. Que Deus o tenha.

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  4. Um cara diferente, apesar do jeitão ,justo e competente. Que Deus abençoe e conforte a família.

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