Concluiremos a entrevista com o Rocky
em grande estilo!
Nesta 4a feira, 29 de abril! Não perca!
https://www.youtube.com/watch?v=2KcZzQe7Qno
https://www.youtube.com/watch?v=2KcZzQe7Qno
(por Solange
Galante - texto e fotos)
A 30ª edição da INTERMODAL SOUTH AMERICA foi realizada entre os dias 14 e 16 de abril, e pela segunda vez consecutiva no Distrito Anhembi, o gigantesco centro de convenções localizado em frente ao Campo de Marte. Trata-se do maior evento das Américas – e o segundo do mundo – em transporte de carga, logística, intralogística e comércio exterior, conectando todos os modais da área, marítimo, rodoviário e, é claro, aeronáutico. Ao todo, o evento reuniu mais de 700 marcas, entre nacionais e internacionais e foi visitado por mais de 50 mil pessoas profissionais na área.
Um dos destaques da GOLLOG, a unidade logística da Gol Linhas
Aéreas, foi a expansão de sua atuação internacional. Além da presença de seus
parceiros estratégicos Mercado Livre e Avianca Cargo no mesmo estande. A
incorporação de aeronaves com maior capacidade (Airbus A330), que permitirão a
expansão da malha para 21 destinos no exterior, além de beneficiar os
passageiros permitirá também à empresa ampliar a conectividade entre mercados
cargueiros e fortalecer sua capacidade em tonelagem para atender as operações
internacionais. Como destacou Patrícia Bello, diretora Geral da Gollog,
"esse movimento permite à empresa atender a operações cada vez mais
complexas com eficiência e previsibilidade, encurtando distâncias".
Entre as aéreas internacionais, Bruno Aires, diretor Global Cargo Sênior da TAP
AIR CARGO destacou o evento como uma plataforma relevante para estreitar
relações com clientes e parceiros, além da troca de conhecimentos e ,
compreensão das necessidades do mercado e identificação de novas oportunidades.
A empresa portuguesa atende atualmente 14 cidades brasileiras e atua em
cinco continentes, focando em especial os segmentos farmacêutico, perecíveis,
mercadorias de alto valor e cargas sensíveis à temperatura. Para o Brasil, a
TAP Air Cargo anunciou estar reforçando as frequências para Porto Alegre e
Florianópolis, bem como a abertura de nova rota para Curitiba. No
plano internacional, destacam-se a expansão para Atenas, a manutenção da
operação com wide-bodies para Nova Iorque e a retomada de Caracas. A companhia
também destacou o lançamento tecnológico TAP Secure Track, um serviço premium
de rastreamento da TAP Air Cargo que utiliza tecnologia GPS e
sensores IoT (Internet of Things) para monitorar cargas em tempo real
quanto a localização, temperatura, exposição à luz e impactos físicos ao
longo de todo o percurso. O sistema permite acompanhamento contínuo das
remessas e emite alertas configuráveis sempre que uma alteração ultrapassa
limites predefinidos.
Por sua vez, a LATAM CARGO anunciou novos investimentos no Brasil, focando a
ampliação de sua capacidade no Aeroporto de Guarulhos, seu principal hub
logístico no País, bem como reforço da operação cargueira para Manaus
e do desenvolvimento do e-commerce. As iniciativas reforçam a estratégia da
companhia de crescimento com eficiência e maior integração logística no país. A
Intermodal coincidiu com a entrada em operação de seu Terminal de Cargas (TECA)
ampliado em 47% em relação à área total dedicada ao e-commerce, considerando
também a expansão já realizada em 2025. Segundo Otávio Meneguette, diretor
da LATAM Cargo Brasil, a ampliação permite à companhia aérea “oferecer
operações mais ágeis, integradas e preparadas para o crescimento da demanda”. Quanto
à operação entre Guarulhos e Manaus, a frequência semanal passou de 10
para 12 voos cargueiros, com acréscimo aproximado de 110 toneladas de
capacidade por semana, com novos voos às quartas e sextas-feiras - considerados
os dias de maior demanda.
Já a AZUL CARGO EXPRESS anunciou o lançamento de uma nova rota
internacional direta entre Campinas (SP) e Lima, no Peru, cuja operação
terá início no segundo semestre deste ano com frequência semanal. A
aeronave que a realizará será o Airbus A321P2F, fortalecendo a
conectividade logística entre o Brasil e a região andina. A expansão ocorre
após o primeiro ano de operação dos cargueiros da Airbus na Azul Cargo, iniciada
no ano passado. A rota se somará às operações já existentes para Buenos Aires,
na Argentina, e Santiago do Chile e, segundo a companhia, atende à demanda
crescente por transporte de cargas de maior valor agregado, incluindo produtos
farmacêuticos, industriais e itens sensíveis.
Aeroportos também marcaram presença na Intermodal edição 2026. A concessionária AEROPORTOS BRASIL VIRACOPOS destacou a implantação de um novo terminal dedicado exclusivamente à importação de produtos farmacêuticos, que dobrará a capacidade atual das câmaras frias para atender à crescente demanda do setor. Trata-se do VCP Pharma. Mas o aeroporto localizado em Campinas (SP) também fez questão, é claro, de destacar sua excelência, enfatizando que foi premiado em 2024 como o melhor aeroporto cargueiro do mundo no ACW World Air Cargo Awards. Na edição de 2026, é novamente finalista na categoria Aeroporto de Carga do Ano, premiação que será realizada no Novo Centro Internacional de Exposições de Xangai, na China, no dia 25 de junho. Viracopos concorre na categoria Regional Cargo Hub (até 1 milhão de toneladas/ano) e é o único aeroporto brasileiro na disputa.
O terminal de
cargas do AEROPORTO INTERNACIONAL DO GALEÃO – RIOGALEÃO CARGO registrou, em
2025, pelo quarto ano consecutivo, recorde na movimentação de cargas, com 62
mil toneladas processadas na importação, atingindo cerca de US$ 17 bilhões
em valor CIF (Cost, Insurance and Freight - Custo, Seguro e Frete)
- uma modalidade de frete onde o vendedor assume todos os custos e riscos
do transporte até a entrega da mercadoria no destino final. Números que
representam crescimento de 4% em peso movimentado e 29% em valor nas
importações na comparação com o ano anterior.
Ainda falando sobre os terminais, também esteve presente a MOTIVA AEROPORTOS - ex-CCR - que atua na administração de 17 aeroportos no Brasil. Ela apresentou as dez rotas cargueiras internacionais e os trabalhos que têm feito para ampliar a malha aérea, visando impulsionar o comércio global e atender as necessidades locais. Destaque para as dez operações realizadas no Aeroporto Internacional Afonso Pena, que recebe, semanalmente, quatro cargueiros provenientes dos Estados Unidos, sendo dois operados pela Avianca/Tampa e dois pela Latam. Os outros seis vêm da Europa, operados pela Cargolux, Lufthansa e Latam. Já o Aeroporto Internacional de Navegantes conta com uma rota regular para Miami (EUA), operado pela Bringer Air Cargo, operações iniciadas recentemente, no final de 2025.
A Motiva também destacou o Terminal de Cargas Farmacêuticas do Aeroporto de
Goiânia, único 100% refrigerado do Brasil, destinado exclusivamente ao
armazenamento de produtos farmacêuticos, químicos e hospitalares. Esse terminal
de cargas está em processo de certificação CEIV, um reconhecimento
internacional criado pela IATA voltado para a logística aérea de produtos
farmacêuticos. Além dos mencionados, os aeroportos de São Luís (MA) e de Joinville (SC), que
também estão sob administração da Motiva, contam com operações cargueiras.
VAMOS VIAJAR?
Enquanto o setor de logística atraía profissionais e visitantes ao Distrito Anhembi, a poucos quilômetros dali, no mesmo bairro de Santana, no Expo Center Norte ocorria mais uma edição da WTM LATIN AMERICA, um dos maiores eventos latino-americanos com foco B2B relacionado a viagens e turismo. Essa feira permitia excelentes negócios, melhor retorno sobre o investimento e acesso a compradores e influenciadores qualificados dessa indústria. Profissionais de todas as áreas participaram do evento, como agências de turismo, operadoras de viagens, empresas dedicadas a acomodações, transportes em geral, cruzeiros marítimos, produtos de luxo e tecnologia, entre outros. Na WTM foi possível explorar as últimas tendências, buscar novos produtos, expandir redes de contatos e encontrar oportunidades para impulsionar diversos negócios na área. O evento registrou 35.463 participantes, superior aos 32.026 de 2025, ou seja, um crescimento de 10,75% - um novo recorde -, evidenciando não apenas expansão quantitativa, mas sobretudo qualitativa. Um de seus principais públicos são, é claro, os agentes de viagem, que representaram um salto de 115% nesta edição, alcançando mais de 18,5 mil profissionais visitando a WTM em 2026.
Focada na aproximação com o trade, a GOL LINHAS AÉREAS destacou como
reforço em sua estratégia de crescimento internacional o
fortalecimento do Aeroporto do Galeão como hub para os voos ao exterior. De
acordo com o diretor comercial da companhia, Danillo Barbizan, a escolha não é
por acaso, já que o Rio de Janeiro sempre foi porta de entrada do Brasil e
"existe uma demanda natural do passageiro internacional que quer
permanecer na cidade, e isso faz diferença na composição das rotas”, explicou.
Mas o executivo também reforçou que o crescimento da Gol será feito
de forma gradual e estruturada. "Não é sobre dar passos maiores que a
perna", acrescentou.
Ele também
ressaltou a importância da integração com o grupo Abra, e que "fazer parte
de um grupo fortalece muito a companhia, principalmente em momentos
desafiadores da indústria”, completou.
A expansão da Gol a um patamar mais elevado nas rotas internacionais também teve
como destaque sua nova classe executiva.
Se a Gol está de olho nos turistas e nos voos internacionais, a TAAG, companhia
aérea de Angola, também pensa em reforçar a conexão entre Brasil e África. Rebecca
Meadows, diretora Executiva da AirlinePros, que representa a TAAG no Brasil,
anunciou que a rota São Paulo-Luanda pode ganhar duas frequências adicionais em
breve, pois os quatro voos semanais entre as duas cidades já apresentam
ocupação entre 85% e 90%. Outros destinos no Brasil também estão em estudo. A
TAAG já tem acordos interline com a Gol e a Latam.
PROCURANDO
ATACAR DE FRENTE OS PROBLEMAS
Mas os problemas trazidos pela guerra no Oriente Médio não foram esquecidos.
Durante a WTM o Ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, apresentou a
representantes latino-americanos a medida emergencial que está sendo tomada
pelo governo brasileiro para reduzir os impactos negativos da alta dos
combustíveis. A inciativa prevê a eliminação temporária dos tributos sobre o
querosene de aviação, visando reduzir os custos operacionais das companhias
aéreas e, em consequência, o preço das passagens. O decreto foi assinado pelo
presidente Luís Inácio Lula da Silva zerando as alíquotas de PIS/PASEP e Cofins
incidentes sobre aquele combustível, e representantes da área de turismo de
outros países da região mostraram interesse em levar a sugestão na mala no
retorno para casa, como no caso do México.
Confira a seguir fotos dos estandes dessas empresas citadas no texto e outras presentes às duas feiras nesta semana, começando pela Intermodal:
(por Solange Galante)
Completando oficialmente 90 aninhos neste domingo 12 de abril de 2026, o principal aeroporto da capital paulista (me desculpe, GRU, mas sem você já vivemos por muito tempo...) teve sua primeira inauguração uma semana antes, no dia 5 de abril de 1936, também um domingo. O interessante foi como descobri isso, por acaso, pois reportagens ou livros sobre o aniversário do aeroporto só registravam o 12 de abril!
Décadas atrás, procurando na Biblioteca Municipal Mário de Andrade a página com o convite oficial para a inauguração em Congonhas, anterior ao dia 12, fui recuando nas edições do jornal O Estado de S. Paulo que folheei usando delicadas luvinhas até deparar com uma notinha comentando da inauguração... "anteontem"!
Na época, e por muito tempo, jornais em São Paulo não tinham edições às segundas-feiras, que era o dia de folga dos jornalistas (assim como continua sendo dos feirantes...), então foi na edição da terça-feira, dia 7 de abril, que encontrei referências a uma tarde de aviação ocorrida no domingo anterior!
Pois então recuei mais uma edição (já que pulávamos a de segunda-feira, inexistente) e descobri isso (conforme abaixo) no dia 5:
Consta que o evento foi um sucesso. Porém, a Auto-Estradas quis reforçar sua presença, já que percebeu que o governo paulista ainda estava indeciso... e sendo, claro, assediado pela concorrência!
Por isso, a campanha foi realizada já no dia 12 de abril. E foi quando, conforme a imprensa registrou, atraiu mais público, autoridades e destemidos pilotos acrobatas, e, então, essa data passou a ser a oficial de inauguração do aeroporto, embora não tenha sido marcada por nenhum corte de fita ou estouro de espumante. Justamente porque surtiria o efeito desejado!
Anos após eu ter publicado em uma revista fotos escaneadas de um jornal da década de 1980 contendo a história inicial de Congonhas e essa minha descoberta, Victor Cukurs, cuja família ficou conhecida por realizar voos panorâmicos com hidroaviões na represa de Guarapiranga, publicou em seu Facebook mais informações sobre o primeiro avião que pousou lá naquela pistinha ainda experimental – o da abertura desta matéria:
Meu pai me levou até o apartamento dele. Mostrei ao senhor Renato a foto abaixo, reproduzida do jornal Ibirapuera News, onde ele, à direita, posa junto a seu instrutor Renato Pacheco Pedroso, após a “façanha” de aterrissar na pistinha de poucas centenas de metros naquele fim-de-mundo que era o caminho para o distante bairro de Santo Amaro – então cidade independente.

Waldemir Oliveira é conhecido como
Neno no automobilismo, seu apelido familiar. Este senhor septuagenário nasceu
em 3 de outubro de 1947 na capital paulista, mas
começou a paixão pela velocidade pelo alto, pela aviação.
Ele conta que,
quando nasceu, seu pai já era piloto – de avião –, e tinha um monomotor de táxi
aéreo. “Meu tio, irmão dele, também era piloto. Então, desde criança, fui me
acostumado com isso. Em casa, tudo girava em torno da aviação. Eu me lembro
sentado no colo do meu pai, no avião dele, já pegando no manche, já começando a
dar meus primeiros passos na aviação.”
E, como era
previsível, ele foi aprender a voar. “Fiz aeroclube inicialmente em Londrina
(PR). Fui piloto privado, depois piloto comercial, voei também no garimpo com
avião monomotor.”
Ele já colecionava uma lista variada de aviões, como o Piper Cherokee 300 e os Cessna 170 e 180. Depois, ele tirou a licença para Piloto de Linha Aérea
e foi trabalhar na Viação Aérea São Paulo, a VASP. Foi o único da família a
chegar à aviação comercial. Na aviação, ficou conhecido como Cmte. Oliveira. “Voei
na Vasp de 1972 a 1979. Estas duas fotos a seguir foram tiradas em 1974, quando
fiz o check para comando do Douglas DC-3. Rasgaram meu uniforme, era costume na
época...”
Ele também voou o quadrimotor Douglas DC-6. Portanto, dois
Douglas icônicos passaram a fazer parte de sua lista. Em seguida, foi para o Boeing 737-200. “No Boeing, eu voei quase quatro mil horas!
Mas, em 1979, após sete anos na empresa, eu saí da VASP por questões pessoais,
para seguir outros caminhos, e fui voar jatos executivos, onde recebi ofertas mais compensadoras
financeiramente.”
Abaixo, duas fotos do Waldemir no Boeing 737-200 da VASP e reprodução de cartão que recebeu da empresa aérea no Dia do Aviador, com o manche do Boeing
E a primeira empresa de aviação executiva onde trabalhou foi a Líder Táxi Aéreo. “Lá, primeiro eu voei todos os Cessna Citation 500 e todos os modelos de Learjet, o Learjet 23, 24, 25, 35, 55, todos os tipos de jatos disponíveis, incluindo o Hawker 125-800. Foram 32 anos baseado em São Paulo e só voando jatos executivos.” Mas, ele conta, também voou para o hoje extinto Banco Real e para o governador de São Paulo, Mário Covas. “Quando ele morreu, eu continuei voando para o Governo do Estado, então para o Geraldo Alckmin, e lá eu aposentei.”
O ENCONTRO COM O ÍDOLO... DEPOIS, PATRÃO!
Talvez nada na vida
de Waldemir se compare ao seu encontro com o piloto de Fórmula 1 Ayrton
Senna e quando passou a ser seu piloto. Waldemir conta como começou esse
capítulo de sua vida profissional:
“Eu estava à noite
no aeroporto de Congonhas, no hangar da Líder, jogando baralho com amigos e
conversando, quando se aproximou o piloto do Senna, um brasileiro também. O ano
era 1989, e Ayrton guardava o avião dele, um Learjet 36, no hangar da Líder,
quando estava em São Paulo.” – Inclusive, Waldemir já havia ido pegar um
autógrafo dele, pois também era seu fã. “O piloto dele me conhecia, havia sido
meu aluno na frota de jatos da Líder Taxi Aéreo, eu que lhe dei instrução, e
depois ele passou a voar para o Ayrton.”
Ao se aproximar, o colega disse que o Ayrton estava querendo comprar um avião maior, pois o Learjet 36 era
um jatinho bem rápido mas também era um avião muito estreito, onde você nem
sequer podia ficar de pé direito dentro dele, “ficava-se muito comprimido lá
dentro”.
Aí, como eu voava
já o Hawker, que depois passou a ser o British Aerospace 125-800, – eu voava
esse avião para o Banco Real – falei do Hawker, um avião mais largo, mais
confortável, onde se podia colocar até uma cama, e que também tinha boa
autonomia.”
Waldemir disse ao
colega que, se preferisse, poderia pessoalmente conversar com Ayrton e dar
todas as dicas sobre o avião que fosse comprar, e sugeriria, portanto, um igual
ao que estava voando. “’Então, eu posso chamar ele para conversar com você?’,
perguntou o outro piloto. Eu respondi,
pode, claro.”
“Aí ele veio. Ele
estava já de saída com o jatinho dele, o Lear 36, esperando para decolar para o
México.” Waldemir se apresentou ao piloto de Fórmula 1, que pediu para que lhe
mostrasse o avião do banco. Dentro do hangar mesmo, Waldemir ligou a parte
elétrica, ar-condicionado, outros sistemas do Hawker. “Aí ele começou a perguntar as coisas, o que
é isso, o que é aquilo etc”.
Waldemir percebeu,
desde já, que Ayrton era uma pessoa muito detalhista em todos os assuntos,
principalmente no automobilismo. “Ele era perfeccionista, não tinha essa de
99%, tudo tinha que ser 100%. Aí ele ficou, eu acho, uma hora e meia comigo,
perguntando do avião, o que é isso, o que é aquilo, o que fazia. Eu pensei, pô,
o cara não para de perguntar... Mas eu continuava explicando, com a maior boa
vontade. Imagina um dos meus ídolos do automobilismo ali dentro da cabine, e eu
dando as explicações. Chegou no fim, ele falou: ‘Legal, acho que esse avião aí
é ideal para mim, mesmo’.” Então, para a surpresa de Waldemir, Ayrton
completou: “E também gostei de você, pelas suas explicações, pelo seu jeito e
tal.” – e, por fim, perguntou – “Você quer voar para mim?”
Waldemir disse que
até gelou ao ouvir a pergunta.
Ayrton precisava de
outro comandante, porque ele voava com um comandante e com um piloto freelancer. A todo lugar que ele ia,
tinha que correr atrás de um freelancer
como segundo comandante. Então, ele queria passar a ter uma tripulação com dois
comandantes fixos.
“Falei, ‘Ayrton, eu
estou no Banco Real, eu gostaria sim, eu gosto de automobilismo, sempre
acompanhei você desde o início do seu trajeto aí no automobilismo...’ Eu já
acompanhava o Emerson Fittipaldi, o Nelson Piquet, até o Ayrton aparecer.
Portanto, aceitei o convite, só pedi para ele me dar 30 dias, pois eu precisava
dar um aviso prévio no banco. Ele falou, ‘ah, beleza, então você dá o seu aviso
prévio, daqui a 30 dias eu vou estar na Alemanha, você fala com o meu pai, seu
Milton, pega uma passagem e a gente se encontra lá em Hockenheim, na Alemanha’
– onde seria a corrida nessa data em que eu estaria saindo do banco.”
Trinta dias depois começava a história de Waldemir com o ídolo Ayrton Senna lá em Hockenheim. O esportista encomendou, lá na fábrica, um avião novo, zero, um Hawker como o que Waldemir tinha mostrado para ele lá no hangar da Líder. “Dali uns tempos o avião ficou pronto – o ano era 1990 – eu fui na fábrica pegar o avião, zero bala, e aí ele passou a utilizar esse outro avião. Antes do Hawker ficar pronto, como eu tinha também a carteira do Learjet além da carteira do Hawker, eu fiquei voando o Learjet dele, e quando a gente passou a voar o Hawker N125AS, o Lear foi vendido.”
Abaixo, o Hawker no voo de entrega, pilotado pelo Waldemir
e Senna com seu "brinquedinho" novo
Waldemir voou para
Ayrton durante três anos, 1989, 1990 e 1991: no primeiro ano, 1989, o
esportista já era campeão mundial; no ano 1990, ele foi bicampeão e, no ano
seguinte, em 1991, ele foi tricampeão. “Então eu tive até esse, digamos,
privilégio de ter acompanhado ele durante todo o tempo que ele correu e foi
campeão na Fórmula 1. Eu peguei o topo da carreira do Ayrton Senna, tive essa
sorte de ter participado quando ele estava no auge.” Waldemir parou de voar
para Ayrton Senna em 1991. “Após aqueles três anos com ele, resolvi sair pois era uma rotina que
privava minha vida pessoal e familiar, haja vista que eu ficava oito ou nove
meses fora do Brasil.” Waldemir voou por mais 10 anos para o Governo de São Paulo e se aposentou da
aviação.
Abaixo, uma das fotos autografadas da coleção de Waldemir
AYRTON COMO “PILOTO” DE HELICÓPTERO
Ayrton Senna, como Waldemir
confirma, nunca foi piloto de aeronave. “Ele tinha um helicóptero, voava junto
com o piloto dele, mas, toda vez que entrava no helicóptero, Ayrton pegava os
comandos e voava o helicóptero muito bem.”
Waldemir conta que,
uma vez, pegou carona no helicóptero com Ayrton e seu piloto até sua casa em
Angra dos Reis, para ir abastecer o avião dele em Jacarepaguá, no Rio de
Janeiro. “E o Ayrton foi pilotando, apesar de não ser piloto de helicóptero, nem
de avião, nem nada. Mas ele tinha o dom, ele tinha o dom da máquina. Ele voava
aquele helicóptero igual ao piloto dele, só que não era licenciado, lógico.”
Por outro lado,
Ayrton não tinha interesse em pilotar avião. “Eu oferecia até, às vezes, o
Hawker. Aí o Ayrton, pegava, dava uma voadinha, mas, segundo ele mesmo, avião a
jato não tinha muita graça. Ele falava realmente isso, não tinha muito gosto
para voar jato, pilotar jato, não. Mas ele pilotava bem tudo, ele pilotava
helicóptero, ele pilotava jet ski, ele pilotava aeromodelismo de rádio
controle, e tudo muito bem feito. O Ayrton era multitarefa, tudo que ele pegava
ele fazia bem.”
A HOMENAGEM AO TRICAMPEÃO NO AR E A PIADA EM
MOMENTO ERRADO
Waldemir estava
pilotando o Hawker quando foram recepcionados pelos caças da Força Aérea
Brasileira ao entrar no espaço aéreo brasileiro, quando voltaram para casa após
o tricampeonato de Fórmula 1. “Não tinha muita surpresa, a gente já esperava
uma homenagem... imagina, chegar no Brasil como tricampeão... Ele já era ídolo
brasileiro, era o cara que dava alegria pra gente aos domingos... a gente já
esperava a homenagem, já sabia que iria acontecer isso.”
Porém, Ayrton deu
azar em duas corridas seguidas e nem o bom humor de Waldemir conseguiu amenizar
a situação. Ele conta: “Lembro quando acabou o combustível dele lá na Alemanha.
Ele estava ganhando a corrida, acabou faltando uma ou duas voltas para terminar
a corrida, ele estava liderando, e o Alain Prost estava em segundo. Acabou o
combustível por algum erro lá no abastecimento da McLaren Honda, seu carro na
época. E isso aconteceu mais uma vez, logo em seguida, ele ficou sem
combustível, também quase ganhando a corrida, e o Alain Prost ganhou as duas corridas
por causa disso, porque estava logo atrás do Ayrton. Aí, depois dessa segunda corrida,
eu o estava esperando no aeroporto, porque eu ficava no aeroporto no dia da
corrida, preparando o avião para irmos embora. Acabava a corrida, ele pegava o
helicóptero, ia para o aeroporto, e a gente ia embora para a casa dele ou para
algum outro lugar. Aí, nesse dia, pensei ‘Vou alegrar ele, coitado’.”
Na hora em que
Ayrton chegou, Waldemir foi brincar com ele, na melhor das intenções, achando
que iria alegrar o patrão. “Falei: é o seguinte, acabou o combustível da sua
McLaren, eu tenho uma (VW) Parati, eu tiro o marcador de combustível da minha
Parati para pôr na sua Honda McLaren.’ Mas, minha amiga, não deu certo...”
Ayrton fechou a
cara, não falou nada, ficou uma semana sem falar com seu comandante. “Eu fui
fazer uma brincadeira, acabei me dando mal, porque ele estava muito louco, eu
não fui muito sensível na brincadeira. Aí, ficou uma semana sem falar comigo,
felizmente, depois normalizou...”
O CURSO DE MERGULHO QUE
NÃO HOUVE
Waldemir conta que,
nas férias de 1990 da temporada de Fórmula 1, Ayrton ligou para sua casa. “Eu
tinha uma escola de mergulho, com equipamentos para mergulho com ar comprimido
e tudo, tinha uma loja e tinha alunos, eu dava curso. Ele então me ligou e
disse: “Oliveira, escuta, eu estou aqui em Angra, a gente foi para a Austrália
no ano passado, e eu fiquei vendo os peixinhos ali por cima d'água, e como eu
sei que você tem uma escola de mergulho, você não poderia vir aqui em Angra, na
minha casa?’ Ele tinha uma casa muito legal lá em Angra, na beira da praia. E ele
prosseguiu, ‘Vem aqui, você me dá as aulas, tem piscina aqui, tem o mar, você
traz o equipamento, você é instrutor de mergulho, e quando a gente for para a
Austrália de novo, poderemos mergulhar profundo, lá na barreira de corais da
Austrália’ – que é uma das coisas mais legais que tem no mundo para mergulho.”
Waldemir botou um monte de
equipamento dentro de sua Parati, máscaras, cilindro de mergulho, enfim, todo
equipamento para dar aula para ele, e foi para Angra.
“No dia que eu
cheguei, com todo o equipamento dentro do carro, Ayrton estava andando de
esqui, sendo puxado por uma lancha. Ele de esqui, acabou levando um tombo, e
quando ele caiu na água, perfurou o tímpano dele. Eu ainda levei ele lá na
cidade de Angra dos Reis, para fazer curativo no ouvido dele.”
Foi então que Waldemir
disse para o patrão “O teu curso de mergulho nem começou, mas já acabou, porque
o fator essencial para você mergulhar é ter o tímpano são, porque você precisa
compensar a pressão. Cada 10 metros que você desce na água é uma atmosfera a mais
na sua cabeça, você precisa compensar para equalizar a pressão interna do
ouvido com a pressão externa da água. E como você está com o tímpano furado,
você não tem condição de mergulhar.”
Ambos chateados, Waldemir disse que, então, como não teria
mais curso de mergulho, iria voltar para casa. Mas Ayrton convidou-o: “Você não quer ficar aqui uns dias?” O piloto de avião aceitou ficar na
casa, de férias. “Fiquei 15 dias lá com eles”, lembra. Com Ayrton estavam
também os sobrinhos dele, sua mãe, seu pai, a irmã Viviane e o cunhado.” Eu
passei umas férias maravilhosas lá, com toda a família dele.”
Abaixo, Waldemir, Senna e família em Angra dos Reis
NENO NO AUTOMOBILISMO
A ligação de
Waldemir (ou Neno) no automobilismo aconteceu meio por acaso. “Foi meu sobrinho
que me convidou. Ele já corria de carro em Londrina. ‘Ah, tio, vamos correr
também? É gostoso, etc’. Eu gostava, sempre gostei do automobilismo, mas nunca tinha
pensado em começar a correr. Eu falei pro meu sobrinho, ‘poxa vida, como é que
eu vou começar no automobilismo? Eu tô com 55 anos, nunca andei nem de kart,
nem nada. Nunca sentei num kart’ Mas o sobrinho insistiu: ‘Não, tio, vamos,
vamos, vamos.’"
Até que Waldemir foi
convencido. “Aí ele arrumou um carro lá em Londrina, no autódromo de Londrina,
era um Fiat Uno, se não me engano. Ele me botou no banco do passageiro e falou,
‘vamos dar uma volta na pista’.”
Com Fábio, seu sobrinho, dirigindo, deram cinco voltas no autódromo. “Aí eu falei, opa, é interessante essa coisa aqui.' Após as cinco voltas, paramos, e eu falei, ‘agora eu vou dirigindo, você vai do lado’.”
“Aí fui dirigindo,
mal sabendo direito fazer as curvas nem nada, mas já senti que dava jeito. Dei
mais cinco voltas, desci do carro, falei para o Fábio, ‘compra um carro
desse aí pra nós, vamos andar’. E aí eu comecei.”
Ele correu dois
anos na categoria Marcas, que é Gol, Voyage, Passat. “Aí eu comprei um Gol. Só
que eu não me dei bem no Gol. Por quê? Porque o Gol era tração dianteira e eu
não me acostumava com aquela tração dianteira, até o dia que um amigo meu
ofereceu para darmos uma volta de Fusca. Após ter andado no Fusca, eu falei, ‘ah,
meu Deus, eu perdi dois anos andando de Gol com tração dianteira e o Fusca tem
tração traseira...’ Ali eu me adaptei instantaneamente. E comecei a correr de
Fusca e já ando de Fusca há 21 anos, só de Fusca."
Abaixo, como piloto de automobilismo e as homenagens ao seu eterno ídolo
(obs: o fusca amarelo é de outro piloto)