
Waldemir Oliveira é conhecido como
Neno no automobilismo, seu apelido familiar. Este senhor septuagenário nasceu
em 3 de outubro de 1947 na capital paulista, mas
começou a paixão pela velocidade pelo alto, pela aviação.
Ele conta que,
quando nasceu, seu pai já era piloto – de avião –, e tinha um monomotor de táxi
aéreo. “Meu tio, irmão dele, também era piloto. Então, desde criança, fui me
acostumado com isso. Em casa, tudo girava em torno da aviação. Eu me lembro
sentado no colo do meu pai, no avião dele, já pegando no manche, já começando a
dar meus primeiros passos na aviação.”
E, como era
previsível, ele foi aprender a voar. “Fiz aeroclube inicialmente em Londrina
(PR). Fui piloto privado, depois piloto comercial, voei também no garimpo com
avião monomotor.”
Ele já colecionava uma lista variada de aviões, como o Piper Cherokee 300 e os Cessna 170 e 180. Depois, ele tirou a licença para Piloto de Linha Aérea
e foi trabalhar na Viação Aérea São Paulo, a VASP. Foi o único da família a
chegar à aviação comercial. Na aviação, ficou conhecido como Cmte. Oliveira. “Voei
na Vasp de 1972 a 1979. Estas duas fotos a seguir foram tiradas em 1974, quando
fiz o check para comando do Douglas DC-3. Rasgaram meu uniforme, era costume na
época...”
Ele também voou o quadrimotor Douglas DC-6. Portanto, dois
Douglas icônicos passaram a fazer parte de sua lista. Em seguida, foi para o Boeing 737-200. “No Boeing, eu voei quase quatro mil horas!
Mas, em 1979, após sete anos na empresa, eu saí da VASP por questões pessoais,
para seguir outros caminhos, e fui voar jatos executivos, onde recebi ofertas mais compensadoras
financeiramente.”
Abaixo, duas fotos do Waldemir no Boeing 737-200 da VASP e reprodução de cartão que recebeu da empresa aérea no Dia do Aviador, com o manche do Boeing
E a primeira empresa de aviação executiva onde trabalhou foi a Líder Táxi Aéreo. “Lá, primeiro eu voei todos os Cessna Citation 500 e todos os modelos de Learjet, o Learjet 23, 24, 25, 35, 55, todos os tipos de jatos disponíveis, incluindo o Hawker 125-800. Foram 32 anos baseado em São Paulo e só voando jatos executivos.” Mas, ele conta, também voou para o hoje extinto Banco Real e para o governador de São Paulo, Mário Covas. “Quando ele morreu, eu continuei voando para o Governo do Estado, então para o Geraldo Alckmin, e lá eu aposentei.”
O ENCONTRO COM O ÍDOLO... DEPOIS, PATRÃO!
Talvez nada na vida
de Waldemir se compare ao seu encontro com o piloto de Fórmula 1 Ayrton
Senna e quando passou a ser seu piloto. Waldemir conta como começou esse
capítulo de sua vida profissional:
“Eu estava à noite
no aeroporto de Congonhas, no hangar da Líder, jogando baralho com amigos e
conversando, quando se aproximou o piloto do Senna, um brasileiro também. O ano
era 1989, e Ayrton guardava o avião dele, um Learjet 36, no hangar da Líder,
quando estava em São Paulo.” – Inclusive, Waldemir já havia ido pegar um
autógrafo dele, pois também era seu fã. “O piloto dele me conhecia, havia sido
meu aluno na frota de jatos da Líder Taxi Aéreo, eu que lhe dei instrução, e
depois ele passou a voar para o Ayrton.”
Ao se aproximar, o colega disse que o Ayrton estava querendo comprar um avião maior, pois o Learjet 36 era
um jatinho bem rápido mas também era um avião muito estreito, onde você nem
sequer podia ficar de pé direito dentro dele, “ficava-se muito comprimido lá
dentro”.
Aí, como eu voava
já o Hawker, que depois passou a ser o British Aerospace 125-800, – eu voava
esse avião para o Banco Real – falei do Hawker, um avião mais largo, mais
confortável, onde se podia colocar até uma cama, e que também tinha boa
autonomia.”
Waldemir disse ao
colega que, se preferisse, poderia pessoalmente conversar com Ayrton e dar
todas as dicas sobre o avião que fosse comprar, e sugeriria, portanto, um igual
ao que estava voando. “’Então, eu posso chamar ele para conversar com você?’,
perguntou o outro piloto. Eu respondi,
pode, claro.”
“Aí ele veio. Ele
estava já de saída com o jatinho dele, o Lear 36, esperando para decolar para o
México.” Waldemir se apresentou ao piloto de Fórmula 1, que pediu para que lhe
mostrasse o avião do banco. Dentro do hangar mesmo, Waldemir ligou a parte
elétrica, ar-condicionado, outros sistemas do Hawker. “Aí ele começou a perguntar as coisas, o que
é isso, o que é aquilo etc”.
Waldemir percebeu,
desde já, que Ayrton era uma pessoa muito detalhista em todos os assuntos,
principalmente no automobilismo. “Ele era perfeccionista, não tinha essa de
99%, tudo tinha que ser 100%. Aí ele ficou, eu acho, uma hora e meia comigo,
perguntando do avião, o que é isso, o que é aquilo, o que fazia. Eu pensei, pô,
o cara não para de perguntar... Mas eu continuava explicando, com a maior boa
vontade. Imagina um dos meus ídolos do automobilismo ali dentro da cabine, e eu
dando as explicações. Chegou no fim, ele falou: ‘Legal, acho que esse avião aí
é ideal para mim, mesmo’.” Então, para a surpresa de Waldemir, Ayrton
completou: “E também gostei de você, pelas suas explicações, pelo seu jeito e
tal.” – e, por fim, perguntou – “Você quer voar para mim?”
Waldemir disse que
até gelou ao ouvir a pergunta.
Ayrton precisava de
outro comandante, porque ele voava com um comandante e com um piloto freelancer. A todo lugar que ele ia,
tinha que correr atrás de um freelancer
como segundo comandante. Então, ele queria passar a ter uma tripulação com dois
comandantes fixos.
“Falei, ‘Ayrton, eu
estou no Banco Real, eu gostaria sim, eu gosto de automobilismo, sempre
acompanhei você desde o início do seu trajeto aí no automobilismo...’ Eu já
acompanhava o Emerson Fittipaldi, o Nelson Piquet, até o Ayrton aparecer.
Portanto, aceitei o convite, só pedi para ele me dar 30 dias, pois eu precisava
dar um aviso prévio no banco. Ele falou, ‘ah, beleza, então você dá o seu aviso
prévio, daqui a 30 dias eu vou estar na Alemanha, você fala com o meu pai, seu
Milton, pega uma passagem e a gente se encontra lá em Hockenheim, na Alemanha’
– onde seria a corrida nessa data em que eu estaria saindo do banco.”
Trinta dias depois começava a história de Waldemir com o ídolo Ayrton Senna lá em Hockenheim. O esportista encomendou, lá na fábrica, um avião novo, zero, um Hawker como o que Waldemir tinha mostrado para ele lá no hangar da Líder. “Dali uns tempos o avião ficou pronto – o ano era 1990 – eu fui na fábrica pegar o avião, zero bala, e aí ele passou a utilizar esse outro avião. Antes do Hawker ficar pronto, como eu tinha também a carteira do Learjet além da carteira do Hawker, eu fiquei voando o Learjet dele, e quando a gente passou a voar o Hawker N125AS, o Lear foi vendido.”
Abaixo, o Hawker no voo de entrega, pilotado pelo Waldemir
e Senna com seu "brinquedinho" novo
Waldemir voou para
Ayrton durante três anos, 1989, 1990 e 1991: no primeiro ano, 1989, o
esportista já era campeão mundial; no ano 1990, ele foi bicampeão e, no ano
seguinte, em 1991, ele foi tricampeão. “Então eu tive até esse, digamos,
privilégio de ter acompanhado ele durante todo o tempo que ele correu e foi
campeão na Fórmula 1. Eu peguei o topo da carreira do Ayrton Senna, tive essa
sorte de ter participado quando ele estava no auge.” Waldemir parou de voar
para Ayrton Senna em 1991. “Após aqueles três anos com ele, resolvi sair pois era uma rotina que
privava minha vida pessoal e familiar, haja vista que eu ficava oito ou nove
meses fora do Brasil.” Waldemir voou por mais 10 anos para o Governo de São Paulo e se aposentou da
aviação.
Abaixo, uma das fotos autografadas da coleção de Waldemir
AYRTON COMO “PILOTO” DE HELICÓPTERO
Ayrton Senna, como Waldemir
confirma, nunca foi piloto de aeronave. “Ele tinha um helicóptero, voava junto
com o piloto dele, mas, toda vez que entrava no helicóptero, Ayrton pegava os
comandos e voava o helicóptero muito bem.”
Waldemir conta que,
uma vez, pegou carona no helicóptero com Ayrton e seu piloto até sua casa em
Angra dos Reis, para ir abastecer o avião dele em Jacarepaguá, no Rio de
Janeiro. “E o Ayrton foi pilotando, apesar de não ser piloto de helicóptero, nem
de avião, nem nada. Mas ele tinha o dom, ele tinha o dom da máquina. Ele voava
aquele helicóptero igual ao piloto dele, só que não era licenciado, lógico.”
Por outro lado,
Ayrton não tinha interesse em pilotar avião. “Eu oferecia até, às vezes, o
Hawker. Aí o Ayrton, pegava, dava uma voadinha, mas, segundo ele mesmo, avião a
jato não tinha muita graça. Ele falava realmente isso, não tinha muito gosto
para voar jato, pilotar jato, não. Mas ele pilotava bem tudo, ele pilotava
helicóptero, ele pilotava jet ski, ele pilotava aeromodelismo de rádio
controle, e tudo muito bem feito. O Ayrton era multitarefa, tudo que ele pegava
ele fazia bem.”
A HOMENAGEM AO TRICAMPEÃO NO AR E A PIADA EM
MOMENTO ERRADO
Waldemir estava
pilotando o Hawker quando foram recepcionados pelos caças da Força Aérea
Brasileira ao entrar no espaço aéreo brasileiro, quando voltaram para casa após
o tricampeonato de Fórmula 1. “Não tinha muita surpresa, a gente já esperava
uma homenagem... imagina, chegar no Brasil como tricampeão... Ele já era ídolo
brasileiro, era o cara que dava alegria pra gente aos domingos... a gente já
esperava a homenagem, já sabia que iria acontecer isso.”
Porém, Ayrton deu
azar em duas corridas seguidas e nem o bom humor de Waldemir conseguiu amenizar
a situação. Ele conta: “Lembro quando acabou o combustível dele lá na Alemanha.
Ele estava ganhando a corrida, acabou faltando uma ou duas voltas para terminar
a corrida, ele estava liderando, e o Alain Prost estava em segundo. Acabou o
combustível por algum erro lá no abastecimento da McLaren Honda, seu carro na
época. E isso aconteceu mais uma vez, logo em seguida, ele ficou sem
combustível, também quase ganhando a corrida, e o Alain Prost ganhou as duas corridas
por causa disso, porque estava logo atrás do Ayrton. Aí, depois dessa segunda corrida,
eu o estava esperando no aeroporto, porque eu ficava no aeroporto no dia da
corrida, preparando o avião para irmos embora. Acabava a corrida, ele pegava o
helicóptero, ia para o aeroporto, e a gente ia embora para a casa dele ou para
algum outro lugar. Aí, nesse dia, pensei ‘Vou alegrar ele, coitado’.”
Na hora em que
Ayrton chegou, Waldemir foi brincar com ele, na melhor das intenções, achando
que iria alegrar o patrão. “Falei: é o seguinte, acabou o combustível da sua
McLaren, eu tenho uma (VW) Parati, eu tiro o marcador de combustível da minha
Parati para pôr na sua Honda McLaren.’ Mas, minha amiga, não deu certo...”
Ayrton fechou a
cara, não falou nada, ficou uma semana sem falar com seu comandante. “Eu fui
fazer uma brincadeira, acabei me dando mal, porque ele estava muito louco, eu
não fui muito sensível na brincadeira. Aí, ficou uma semana sem falar comigo,
felizmente, depois normalizou...”
O CURSO DE MERGULHO QUE
NÃO HOUVE
Waldemir conta que,
nas férias de 1990 da temporada de Fórmula 1, Ayrton ligou para sua casa. “Eu
tinha uma escola de mergulho, com equipamentos para mergulho com ar comprimido
e tudo, tinha uma loja e tinha alunos, eu dava curso. Ele então me ligou e
disse: “Oliveira, escuta, eu estou aqui em Angra, a gente foi para a Austrália
no ano passado, e eu fiquei vendo os peixinhos ali por cima d'água, e como eu
sei que você tem uma escola de mergulho, você não poderia vir aqui em Angra, na
minha casa?’ Ele tinha uma casa muito legal lá em Angra, na beira da praia. E ele
prosseguiu, ‘Vem aqui, você me dá as aulas, tem piscina aqui, tem o mar, você
traz o equipamento, você é instrutor de mergulho, e quando a gente for para a
Austrália de novo, poderemos mergulhar profundo, lá na barreira de corais da
Austrália’ – que é uma das coisas mais legais que tem no mundo para mergulho.”
Waldemir botou um monte de
equipamento dentro de sua Parati, máscaras, cilindro de mergulho, enfim, todo
equipamento para dar aula para ele, e foi para Angra.
“No dia que eu
cheguei, com todo o equipamento dentro do carro, Ayrton estava andando de
esqui, sendo puxado por uma lancha. Ele de esqui, acabou levando um tombo, e
quando ele caiu na água, perfurou o tímpano dele. Eu ainda levei ele lá na
cidade de Angra dos Reis, para fazer curativo no ouvido dele.”
Foi então que Waldemir
disse para o patrão “O teu curso de mergulho nem começou, mas já acabou, porque
o fator essencial para você mergulhar é ter o tímpano são, porque você precisa
compensar a pressão. Cada 10 metros que você desce na água é uma atmosfera a mais
na sua cabeça, você precisa compensar para equalizar a pressão interna do
ouvido com a pressão externa da água. E como você está com o tímpano furado,
você não tem condição de mergulhar.”
Ambos chateados, Waldemir disse que, então, como não teria
mais curso de mergulho, iria voltar para casa. Mas Ayrton convidou-o: “Você não quer ficar aqui uns dias?” O piloto de avião aceitou ficar na
casa, de férias. “Fiquei 15 dias lá com eles”, lembra. Com Ayrton estavam
também os sobrinhos dele, sua mãe, seu pai, a irmã Viviane e o cunhado.” Eu
passei umas férias maravilhosas lá, com toda a família dele.”
Abaixo, Waldemir, Senna e família em Angra dos Reis
NENO NO AUTOMOBILISMO
A ligação de
Waldemir (ou Neno) no automobilismo aconteceu meio por acaso. “Foi meu sobrinho
que me convidou. Ele já corria de carro em Londrina. ‘Ah, tio, vamos correr
também? É gostoso, etc’. Eu gostava, sempre gostei do automobilismo, mas nunca tinha
pensado em começar a correr. Eu falei pro meu sobrinho, ‘poxa vida, como é que
eu vou começar no automobilismo? Eu tô com 55 anos, nunca andei nem de kart,
nem nada. Nunca sentei num kart’ Mas o sobrinho insistiu: ‘Não, tio, vamos,
vamos, vamos.’"
Até que Waldemir foi
convencido. “Aí ele arrumou um carro lá em Londrina, no autódromo de Londrina,
era um Fiat Uno, se não me engano. Ele me botou no banco do passageiro e falou,
‘vamos dar uma volta na pista’.”
Com Fábio, seu sobrinho, dirigindo, deram cinco voltas no autódromo. “Aí eu falei, opa, é interessante essa coisa aqui.' Após as cinco voltas, paramos, e eu falei, ‘agora eu vou dirigindo, você vai do lado’.”
“Aí fui dirigindo,
mal sabendo direito fazer as curvas nem nada, mas já senti que dava jeito. Dei
mais cinco voltas, desci do carro, falei para o Fábio, ‘compra um carro
desse aí pra nós, vamos andar’. E aí eu comecei.”
Ele correu dois
anos na categoria Marcas, que é Gol, Voyage, Passat. “Aí eu comprei um Gol. Só
que eu não me dei bem no Gol. Por quê? Porque o Gol era tração dianteira e eu
não me acostumava com aquela tração dianteira, até o dia que um amigo meu
ofereceu para darmos uma volta de Fusca. Após ter andado no Fusca, eu falei, ‘ah,
meu Deus, eu perdi dois anos andando de Gol com tração dianteira e o Fusca tem
tração traseira...’ Ali eu me adaptei instantaneamente. E comecei a correr de
Fusca e já ando de Fusca há 21 anos, só de Fusca."
Abaixo, como piloto de automobilismo e as homenagens ao seu eterno ídolo
(obs: o fusca amarelo é de outro piloto)
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