Por que blindar uma companhia aérea
ou uma categoria profissional?
(por Solange Galante)
Recentemente, o caso de uma má (péssima...) conduta de um piloto da aviação comercial ganhou as manchetes de todo o país por ele ter sido apreendido em pleno local de trabalho, um avião da Latam, em pleno "horário de expediente", prestes a iniciar mais um voo da companhia.
Como de praxe, assisti a diversas reportagens, analisei comentários de várias fontes, antes de decidir redigir esta minha opinião, longe do calor daquele momento. Afinal, não sou como o Youtuber que, pouco mais de uma hora após um gravíssimo acidente aéreo, com os destroços e corpos ainda fumegantes, fez uma "live" no Youtube repleta de especulações, e nada mais que especulações, de cerca de uma hora e meia, sobre a tragédia. Desnecessário, desrespeitoso, imoral e indecente. Que o digam os familiares das vítimas.
Bem, voltemos ao caso recente. Um comandante da aviação comercial, idoso, repleto de experiência profissional – talvez nem tanta experiência de Vida, a ponto de fazer o que supostamente fez – destruiu a própria vida, a de seus familiares, e manchou a imagem da companhia naquele momento crucial da prisão. Analisemos.
1) É claro que a grande comunidade da Aviação brasileira levou um soco. Porque os pilotos, especialmente da Aviação Comercial, são vistos, quase sempre, como deuses. Seres perfeitos, quase míticos, em seu uniforme impecavelmente passado e limpo, com as asinhas da profissão no paletó e no quepe (exceto nas cias. que aboliram o quepe), uma referência principalmente para as crianças, enfeitiçadas pela imagem da profissão. Porém, eles são todos HUMANOS. Ficam doentes, passam dificuldades em casa, na família, no condomínio onde residem, têm fragilidades, alguns até doenças mentais ocultas como a daquele piloto da Germanwings que causou um acidente na Europa há alguns anos, cometendo suicídio e assassinando dezenas de pessoas.
Muitas vezes nos esquecemos disso, não é mesmo? Até causando estresse desnecessário em um voo, atrasando a viagem, por caprichos próprios, gerando mais problemas à tripulação, numa bola-de-neve que inclui desregulamentação e outras quebras da rotina do voo.
Pois aquele senhor alto, magro e grisalho, óbviamente tinha/tem um problema sério, tornando-o desumano e criminoso, um problema provavelmente não percebido pelos exames psicotécnicos OU negligenciado por tratamentos incompletos anteriores (estou só especulando). Não agia, na vida privada, como deveria agir dentro da nossa sociedade e, quiçá, um dia levasse isso até para bordo, como o piloto da Germanwings levou.
Conclusão: ele não era/não é um deus, é um ser humano e o que nos escandalizou foi descobrir isso naquele momento. Aquele senhor idoso e grisalho, do uniforme impecável, representando uma companhia aérea gigantesca, realizando uma prestação de serviço muito admirada por todos, estava sendo investigado e detido por provável ato recorrente de pedofilia.
2) Preso com alarde, quando deveria ter sido preso no escurinho do cinema?
A Polícia Federal, personagem ativa na execução do mandado jurídico em questão, procurou o acusado primeiro em casa e, não obtendo sucesso, dirigiu-se ao seu local de trabalho. Ora, todos os dias a imprensa nos apresenta pessoas de todos os níveis sociais e profissões presos em seus locais de trabalho, seja sede ou filiais. Para as polícias, qualquer uma delas, não existe hora, dia, feriado, comemoração etc. Seis horas da manhã é meio dia, templo, restaurante, hospital são rua, e por aí vai. O importante é deter pois, não raras vezes, o acusado é informado da operação contra si e se esvai para escapar de flagrante e de aprisionamento – recentemente, tivemos o caso de um ex-deputado que foi avisado que a Polícia Federal estava indo a seu encontro e preocupou-se com seu freezer lotado de picanha. No caso dos crimes, a sociedade deve ser preservada, não a individualidade (dentro da Lei). Calhou de ser um piloto em um avião repleto de passageiros. Poderia ser um padre no meio de uma missa, um empresário dando uma palestra diante de uma plateia imensa, um médico durante uma cirurgia, resguardando-se a razoabilidade – deixa a cirurgia acabar , por exemplo. A polícia, afinal de contas, não vai chegar discretamente no ouvido do acusado e dizer "Amigo, precisamos falar com você aqui do lado, baixinho... Pare o que está fazendo porque sou policial e tenho uma 'reclamação' contra o senhor..."
Conclusão: Pilotos não têm privilégio. Nem médicos, nem atores, nem professores, nem empresários, nem proprietários de triplex. Havendo abusos, existem leis para punir os excessos de autoridade.
3) Companhia blindada e a tinta preta dos destroços.
Décadas atrás, quando havia algum acidente ou incidente na aviação comercial, imediatamente se aplicava uma tinta preta no logo e no nome da empresa, e também na matrícula pintada na fuselagem. A razão disso era não expôr a marca da companhia numa cena chocante, triste, ou até mesmo fatal. Mas isso acabava atiçando ainda mais a curiosidade de quem via a cena para saber "que empresa é?"
Pessoalmente, acho que pararam de fazer isso não porque a tinta é um custo a mais, mas porque era inútil na maioria das vezes: a pintura corporativa em uma fuselagem e cauda, a "livery" da companhia, não se resumia à logomarca e nome, e facilmente se acabava identificando a empresa.
Portanto, a especulação só piora as coisas. Esconder o nome de tanta empresa envolvida em problemas diversos entre as que aparecem nos noticiários, não vai resolver nada. Melhor para elas é encarar o problema de frente, ainda mais quando a própria empresa não é a investigada, e sim um de seus funcionários, e ninguém mais, como no caso desse piloto da Latam.
Conclusão: Mais uma vez, houve quem criticasse a "exposição" da Latam mas não a exposição das Lojas Americanas, da Ultrafarma e de tantas outras empresas, aéreas ou não, repletas de funcionários que não tinham nada a ver com o problema. Companhia aérea não deve ter privilégio, não. Nenhuma empresa, aliás.
4) Pilotos, como eu disse, não são deuses, mas vivem no imaginário de todos, em especial, das crianças. Que devem, sem que os pais pensem duas vezes, ser educadas para não deixar que adultos se aproximem delas de maneira "estranha" e lhe toquem o corpo ou ofereçam presentes em troca de alguma "permissão". Pilotos devem fazer parte da lista de pessoas que devem ser evitadas em casos "suspeitos". Assim como deve acontecer também com o super-homem, o homem-aranha, o padre, o pastor, o policial, o tiozinho da mesma idade do vovô que vende pipoca na esquina, todo mundo, portanto!
Conclusão: o estranho silêncio dos grupos de aviação e especificamente de pilotos nas redes sociais a partir do caso em questão, ao contrário de outros temas tão fortemente debatidos na internet por eles, teria alguma explicação?
Encarar as questões sociais de FRENTE, de peito aberto, sem tabus, sem mistério, parece ser, ainda, o melhor remédio em casos semelhantes.
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