domingo, 9 de fevereiro de 2025

SPEECH Especial

 NA EVOLUÇÃO DA PULVERIZAÇÃO AGRÍCOLA, O CÉU É O FUTURO

 

 (Foto: divulgação Pyka)

 

Para se falar da utilização de meios aéreos na agricultura é preciso conhecer sua evolução

 
(por Solange Galante) 
 

Há quase três décadas, escrevi minha primeira matéria sobre aviação agrícola na extinta Aviação em Revista, que rotineiramente atualizava o mercado desse importante segmento aéreo brasileiro. Foi lá que conheci as vantagens e desvantagens do uso do avião de pulverização, e também dos helicópteros utilizados nesse trabalho para a aplicação de defensivos, para semeaduras e tudo mais que pudesse ser depositado sobre o solo ou sobre as plantações utilizando-se, principalmente, aquelas aeronaves, quase sempre “monoplaces”, derivadas do primeiro EMB-200 Ipanema (nacional) ou outros modelos de aviões, nacionais ou estrangeiros, normalmente de asa baixa, alguns poucos biplanos, e com um grande tanque na dianteira da fuselagem.

Ainda se usavam também os “bandeirinhas”, pessoas que ficavam no solo junto às plantações para indicar ao piloto agrícola, utilizando bandeiras, a direção exata que deveria seguir para o lançamento dos produtos nas plantações. Mas também escrevi matérias sobre o uso do GPS e outros equipamentos tecnológicos para dispensar esses funcionários desse trabalho insalubre e tornar mais precisas as aplicações. Também acompanhei a entrega dos primeiros Ipanema movidos a álcool (etanol), levando menos emissões de CO2 ao campo, e a luta do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG) para provar as vantagens do avião sobre os equipamentos terrestres (ex: evitando-se o amassamento das plantas).

 

O Guia de Aviação Agrícola vinha quase sempre encartado na própria Aviação em Revista.

 

 
 Setembro de 1999. Minha reportagem no Guia de Aviação Agrícola:
 O desenvolvimento tecnológico e os problemas do setor.

 

Mas as revistas onde colaborei, inclusive a antiga Flap Internacional, não costumavam dar muito espaço para essa atividade. Curiosamente, minha primeiríssima reportagem na Flap, já como colaboradora fixa, foi justamente sobre aviação agrícola – depois, nenhuma outra foi publicada nessa revista. Provavelmente porque não se costumava veicular anúncios das empresas do setor nas revistas de aviação. E o interesse de Carlos André Spagat era ter anúncio, é claro.

Mesmo sem colaborar mais com pautas a respeito, continuei acompanhando de longe as novidades do setor. Especialmente sua evolução.



 
 
Dezembro de 2004/janeiro de 2005: Minha primeira reportagem para a Revista Flap Internacional foi sobre Aviação Agrícola.

 

HISTÓRIA IMPORTANTE

 

A aviação agrícola teve início, no Brasil, a partir do ataque de uma praga de gafanhotos na região de Pelotas (RS) em 1947. Lá foi realizado o primeiro voo agrícola no País. Era dia 19 de agosto, e foi utilizada uma aeronave Muniz M-9, biplano de fabricação nacional, monomotor de 190 HP, autonomia de voo de quatro horas, equipada com depósito metálico, dividido em dois compartimentos e com capacidade de carga de aproximadamente 100 kg. O piloto civil Clóvis Candiota, que realizou o voo, é considerado o Patrono da Aviação Agrícola no Brasil.

 

 
Biplano Muniz M-9 semelhante ao utilizado na primeira pulverização agrícola no Brasil 

(Foto: divulgação SINDAG)

 

Menos de seis meses depois, a famosa piloto Ada Rogato tornou-se a primeira mulher a fazer uma operação aeroagrícola em território nacional. Isso aconteceu no dia 7 de fevereiro de 1948 a bordo de um Paulistinha CAP-4. Ada Rogato fez, também, a primeira aplicação para combater a broca-do-café entre os municípios de Gália, Garça, Marília e Cafelândia, região centro-oeste de São Paulo. O voo foi solicitado pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC).

Entretanto, por muito tempo, a aviação agrícola foi considerada nociva e perigosa, seja pelo uso de venenos nas culturas de alimentos, atingindo inclusive os “bandeirinhas” – pois era impossível determinar onde as gotículas iriam cair –, seja pelos inúmeros acidentes com pilotos, alguns dos quais, devido atitudes anormais realizadas como se fossem corretas, acarretando queda de aeronaves e morte dos pilotos e também, eventualmente, atingindo pessoas em terra. Apesar desses problemas e de algum preconceito também, a legislação é muito rigorosa sobre o uso de aeronaves para esses trabalhos, e isso garante sua qualidade e importância.

 

REDUÇÃO DE CUSTOS, DE MORTES E DE POLUIÇÃO

 

Em consonância com o avanço das tecnologias utilizadas no agronegócio para melhorar a produtividade em um país continental que representa um dos celeiros do mundo, equipamentos terrestres continuavam sendo operados e assim ainda o serão é claro, mesmo porque as operações aéreas são mais caras, mas o avanço dos veículos aéreos não tripulados, autônomos ou não, também chegou ao setor agrícola, com uma grande vantagem: o uso de baterias recarregáveis, capazes de reduzir custos e, fator cada vez mais importante e urgente, ser ambientalmente amigo. Os drones foram a primeira novidade e começaram a sobrevoar áreas agrícolas, mas tinham e ainda têm limitações.

Esse movimento também atraiu, anos atrás, uma empresa e executivos que também conheço há muito tempo. No caso, trata-se da Synerjet, que nasceu do Grupo Synergy. O ano era 2011. Já como representante de fabricantes de aviões executivos e helicópteros, a Synerjet tinha planos ambiciosos, que foram se mostrando cada vez mais reais ao longo dos anos, desde sua estreia na feira Labace (Latin American Business Aviation Conference & Exhibition) daquele ano, quando a experiência de José Eduardo Brandão, então diretor Comercial e de Marketingda companhia, já se mostrava marcante. 

 

SYNERJET AGRO

 

Do atendimento ao setor agrícola com aeronaves versáteis e econômicas, quais sejam os suíços Pilatus PC-12, turboélice, e depois o jato PC-24 também – e parceria com a Embraer para a distribuição e revenda de peças para operadores e oficinas de manutenção dos aviões agrícola Ipanema em todo o país, e após outras experiências na comercialização de drones, a Synerjet chegou a 2025 como representante do avião autônomo da Pyka, uma startup sediada no Vale do Silício, na Califórnia (EUA), que está de olho no vasto potencial do mercado agrícola brasileiro.

Em cerimônia realizada no restaurante Fogo de Chão, unidade Jardins, em São Paulo, há duas semanas, a fabricante estadunidense e a representante brasileira anunciam uma parceria estratégica visando acelerar a adoção pelo mercado brasileiro do modelo Pelican Spray, o carro-chefe da Pyka, uma aeronave agrícola autônoma. 

 

(Foto: divulgação Pyka)

 

Com alto desempenho e 100% elétrica, o Pelican Spray é o maior Sistema Aéreo Não Tripulado (UAS - Unmanned Aerial System) autorizado pela norte-americana Administração Federal de Aviação (FAA - Federal Aviation Administration), para atividades comerciais. A aeronave já se encontra regulamentada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e pronta para atuar no Brasil em operações aero-agrícolas. E, a partir do anúncio na cerimônia em São Paulo, seguido pela assinatura oficial da parceria, a novidade ganhou as manchetes da imprensa, especialmente as publicações do agro-negócio, desde já apresentando seu caráter revolucionário.

Durante a coletiva de imprensa não deixaram de surgir perguntas curiosas como “os pilotos agrícolas não ficarão enciumados com essa concorrência?” Os representantes da Pyka presentes, Volker Fabian (CCO) e Michael Norcia (CEOe, representando a Synerjet, Fábio Rebello (CCO), Mateus Dall’aqua, diretor da divisão agro e Rui Aquino, presidente do Conselho Consultivo e sob o olhar atento da imprensa e também do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, não deixaram ninguém no vácuo ao explicar que, pelo menos neste primeiro momento, com os modelos atuais – um Pelican trimotor, que já evoluiu para uma versão quadrimotora – serão concorrentes diretos, na verdade, dos equipamentos terrestres, mesmo os autônomos. Com isso, aviões e até helicópteros, que pulverizam, por exemplo, em áreas de terrenos acidentados, como de plantações de bananas no litoral paulista, continuarão realizando seu trabalho normalmente, onde o Pelican poderá ser um complemento às atividades, mesmo porque, entre outras características, pode operar inclusive à noite.

É natural que todo tipo de atividade realizada por drones e aeronaves sem pilotos provoque ainda alguma desconfiança mas, ao longo do tempo, a redução de custos, mais segurança nas operações e redução ou eliminação da pegada de carbono nessa atividade acabam atraindo mais empresas e criando postos de trabalho adaptados a essas mudanças. Ao longo da história da humanidade, novas tecnologias aposentaram profissões do passado e criaram outras.

A solução inovadora trazida ao mercado pela Pyka tem como objetivo reduzir os custos operacionais para os agricultores e revolucionar o setor de aviação agrícola no país. Desde a entrega de sua primeira unidade em 2021, a Pyka ampliou sua atuação com clientes ativos na América do Norte e Central e, atualmente, possui uma frota de 10 aeronaves agrícolas em operação globalmente. “Esperamos vender pelo menos 20 unidades no primeiro ano e aumentar significativamente esse número, com a previsão de que o mercado possa absorver até 100 aeronaves por ano”, afirmou Mateus Dallacqua, da Synerjet.

 

(Foto: divulgação Pyka)

Para saber mais:

www.synerjet.com

www.flypyka.com



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